Muitas vezes a paixão pela vida dava lugar a uma tristeza contida, consciente de si mesma, quase lógica e, acima de tudo, inexoravelmente permanente. A Mulher de Quase Trinta Anos era assim o tempo todo: quando não era noite, era tempestade. E foi assim que encontrou dentro de si uma espécie de equilíbrio; viveria para sempre num quarto de pêndulos cuja existência indecisa oscila entre a vontade de viver e o eterno vazio da desistência. Vivo como as rochas desgastadas que o mar espanca e lambe para novamente voltar a lamber e espancar. Nem me movo: sobrevivo bem às intempéries. Afinal de contas, tem sido assim sempre. Aprendi a permanecer mais em estado de pedra que de nuvem. Desde então, tenho aprendido a reconhecer a memória das emoções, especialmente a solidão. E já que é inevitável a mim, assim como é a todos nós, não me resta fazer mais nada, nem recuar nem reagir, além de lançar sobre ela o meu olhar de sacerdotisa e o meu aceno de completa e total indiferença. Algumas coisas não precisavam ser ditas, nem exxxxplicadas, nem sequer pensadas. Antes simplesmente sentidas. Porque elas existem independendo da nossa vontade e, principalmente, da nossa existência. Querer nomear o tempo todo o que se está sentindo é a perda desse tempo que se sente. Ou não sente. Seja lá o que haja dentro desse espaço confuso embrulhado e tímido dentro das nossas mentes quando estamos sós. Ah, a solidão! Como é difícil disfarçá-la, enganá-la, transformá-la em outra coisa! E, sendo assim, até o desespero é melhor porque no desespero a gente sente, grita, age! Na solidão a gente anula, invalida, deixa de respirar, dissolve, quase morre, desaparece de si. Principalmente quando você está acompanhado. -Acompanhado não quer dizer que não está sozinho-, prestem bem muita atenção ao fato! Agora, se tratando de maneiras de burlar a solidão, uma verdade de quem realmente sabe do que está falando: Se você achar que vale a pena correr riscos para alcançar uma suposta felicidade pode até dar certo, mas sempre tenha a convicção de que um dia poderá pagar um preço alto demais por isso, sempre é bom tomar cuidado, mesmo quando o valor parecer irrisório. Considero esta dúvida uma das maiores; até que ponto é seguro estar em paz. Primeiro devemos conquistar a nossa paz, para isso temos que entender a memória das emoções numa análise individual e combinatória de todas as emoções que nos atingem. Às vezes, confundo tranquilidade com tristeza, solidão com abandono e amor com aprisionamento. Tá vendo como é difícil separar as coisas... Estar triste não significa necessariamente estar angustiado porque a tristeza faz parte da ordem natural das coisas e inevitavelmente ela consegue penetrar na essência de todos os acontecimentos. Portanto, para fins de classificação, ela é mais uma constatação do que um sentimento. Pensando bem, até a felicidade é triste. É triste porque é breve e sabe disso, ela sabe que não permanece em lugar algum por muito tempo. Vinícius estava certíssimo: ela é a gota, é o vento, é a pluma... Sendo assim, a tristeza não é o contrário da felicidade: já que a felicidade também é triste. O contrário da verdadeira felicidade (que na verdade é a Alegria) é a Angústia. A alegria é mais sincera que a felicidade porque é descompromissada e desinteressada. Justamente por não saberem disso, as crianças são mais Felizes que os adultos porque estão sempre alegres. E são sem o saber, que é o melhor de tudo! Quando descobrem, deixam de ser(é como se fosse um segredo mágico, o grande segredo mágico da infância!) È a ignorância do porvir, o não precisar de esperança, o desconhecimento do tempo, do passar das horas, a inocência sobre o futuro, tudo isso coroado com o Grande Segredo Mágico da Alegria da Infância!! A alegria que elas não sabem de onde vem nem quando vai acabar. Nós, adultos, pensamos e esperamos pelos problemas antes de eles aparecerem. Quando existe um ser humano realmente alegre e feliz há quatro possibilidades: ou é eternamente criança ou é um ignorante ou um louco ou é um sábio; e este é o mais forte e merece todo o mérito e todo o respeito; ele aprendeu com a vida e não se deixou abater, ele lutou e conseguiu ou ainda está lutando porque gente como ele não costuma desistir e acredita que no fim tudo dá certo; este é do tipo que sabe realizar sonhos. Estas pessoas merecem até nome de rua, de avenida e de praça pública porque certamente são os heróis da sobrevivência, os grandes mestres da arte de viver. Os pré-socráticos já sabiam que a árvore do conhecimento é a árvore da dor. Às vezes eu penso que melhor seria não pensar. Eu gostaria de ser um ignorante, um iletrado, um pastor de ovelhas do campo e desconhecer toda espécie de sordidez e insanidade humanas. Eu quero a minha ingenuidade novamente, eu quero a minha capacidade de confiar na minha raça e na minha pessoa apesar de tudo e definitivamente eu não queria saber sobre os campos de batalha, das crianças e mulheres refugiadas da guerra, das baleias e golfinhos assassinados todos os anos, do aquecimento global, da devastação da natureza, do fim do mundo, dos vícios irremediáveis, das pragas atômicas, do fim do mundo, da depressão inexprimível, do desacordo contínuo entre o abismo corpo/alma, da falta de perspectiva do mundo atual, da alienação e frustração da minha geração, da fome e da tortura e da doença do mundo atual. O mundo atual é um lixo, uma infecção generalizada... Nossa, esse parágrafo começou falando sobre alegria e eu vim parar no apocalipse? Mas o que é isso?! eu fiquei doente em solidariedade ao mundo???
quinta-feira, 22 de abril de 2010
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