quinta-feira, 22 de abril de 2010

Da Angústia

A angústia é a tristeza quando se rebela e cria formas variadas de demônios e melancolias.
A angústia é a tristeza se olhando no espelho querendo ser bonita mas não consegue. Ela é disforme porém nítida, real e implacável.
A angústia é o peso de cada coisa, a medida da impossibilidade, do desejo não-realizado, da beleza não reconhecida, do amor não correspondido, do sonho não alcançado.
A angústia é um poema de Augusto.
A angústia são as nuvens avolumando-se lentamente carregando o peso de uma antiga civilização falida.
A angústia é uma pedra lançada no fundo de um rio caindo lá embaixo junto a outras pedras paradas enquanto a vida passa impunemente pela superfície. Ela é a grande tormenta e a grande dor; a angústia é uma velha cantora de Blues que já não tem voz, só uísque. A tristeza pode ser grande, mas é justa porque um dia vai embora enquanto a angústia é trapaceira e covarde e monstruosa; ela é a intrusa das almas e tem duas irmãs bem íntimas: a espera e a dúvida. Ou talvez sejam apenas amigas(ninguém nunca soube ao certo) mas o fato é que vivem sempre juntas essas três malditas! A angústia era o segundo nome da Menina da Janela. A mãe dizia: não adianta! Ela não sai da janela! Por acaso ela pensa que é algum jarro de flor? ou alguma vidraça ou coisa assim? E ela parada na janela todos os dias pensava: vida, porque eu sempre deixo você passar por mim e eu fico aqui só te olhando, te sonhando e te desejando? Até que um dia ela saiu. Aí, ela começou a participar do mundo dos humanos e até gostou e se emocionou e depois cansou, depois voltou e cansou e voltou várias vezes até ficar tonta no meio fio da calçada entre a janela e a rua. De vez em quando ela volta para sua janela em seu estado de flor original. Mas hoje ela não tem mais raiz, hoje ela é mais do vento, embora da terra. E o seu segundo nome deixou de ser Angústia porque ela conseguiu sair da janela. Ela alcançou a glória.

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