sexta-feira, 30 de abril de 2010

Carta para papai

Eu acho muitas coisas velhas na minha gaveta. Um dia desses eu achei essa carta que não faz muito tempo eu escrevi, mas nem lembrava dela. Tenho mania de escrever cartas quando não posso ou não quero ou não tenho vontade de falar diretamente com as pessoas. Guardo centenas delas e de todas as fases da minha vida. Esta foi uma carta que eu escrevi para o meu pai há um tempo atrás e dizia assim;

Papaizinho,


Não sei o que você acharia de mim hoje, o que você pensaria dessa minha natureza dionisíaca-saturniana absurda. Você, eu sempre compreendi mesmo quando não estava entendendo nada e te amava com todos os defeitos. Eu assistia a sua dor olhando pra dentro e escutava os seus escândalos internos mais silenciosos sem nunca ter ouvido falar em Freud nem psicanálise. Vamos às novidades: seu filho tem um filho com o mesmo nome e que é uma graça! Como a genética é fabulosa, seus olhos estão nos olhos dele até na maneira de observar as pessoas, aquela seriedade toda que chega a parecer que está de óculos! Uma lembrança sua nos olhos do filho do seu filho! Realmente incrível impressionante a natureza é perfeita! Me dou bem com o pai dele, apesar de possuírmos naturezas nitidamente bem opostas, mas o que importa é que ele tem o coração puro e a alma limpinha e eu o amo por isso. Eu não tive filhos nem quero nunca quis nunca quererei. Você não imagina como andam as coisas por aqui, papai! O mundo enlouqueceu, está com febre e o tempo é ruim, muito ruim para a vida e por isso sou contra a concepção de mais criancinhas inocentes no mundo. Mas o meu sobrinho lindo é como um filho então eu cuidarei dele com toda a ternura do meu coração. Mudando de assunto, acho que você deve ter sido o grande amor da vida de mamãe porque ela nunca mais quis ninguém. Tá vendo? Nem precisava daquele ciúme todo! ela continuou te amando sempre apesar de tudo e mesmo quando você pirou da batatinha! Mamãe é sempre mamãe sempre linda. Brigamos muito, é verdade, mas sobrevivemos a tudo, somos estilhaços da mesma família; incontáveis acidentes nos unem, somos fragmentos. Por isso, nos perdoamos mutuamente e somos cúmplices da mesma loucura. Sei que ela me acolheu com amor antes do crescimento do útero. Mas algo deu errado e o resto aprendemos a conviver, é humano e nos pertence; o amor, a culpa e o remorso. E nós brigamos mas ela é a minha mamaezinha sagrada e dadivosa e linda de morrer! Mamãe é Nossa Senhora! Mamãe é Deus! Mamãe é a interjeição luminosa da vida eterna! E quando nós discutimos por um motivo qualquer que eu nem lembro aqui e eu grito depois me calo e ela grita e depois se cala e acabamos gritando juntas depois peço desculpas primeiro porque sou a filha e tenho vontade de chorar e dou abraços apertados nela e ela me perdoa e continuamos conversando sobre um assunto qualquer do momento. É assim todos os dias várias vezes ao dia quando estamos no mesmo recinto. Na verdade, nunca penso muito em você mas pensando bem todos os meus amigos, namorados ou amantes tem sempre algo muito parecido com você, seja na aparência física ou no comportamento. Então, essa deve ter sido a forma que eu inventei dentro da minha mente para estar sempre perto de você, papaizinho! Isso prova que eu continuo perto de você, através dos homens da minha vida! Fora o gosto pela poesia, eu herdei alguns de seus hábitos, pois já bebi mais cerveja do que você conseguiria em três vidas. Não é todo dia, mas às vezes eu escrevo um poema mas é raro é muito raro é tão raro quanto um dia feliz e esse dia costuma ser o momento mais feliz da minha vida. Eu andei lendo umas coisas que você escrevia naquele seu caderno de anotações onde eu costumava desenhar e você ficava furioso porque eu riscava tudo com caneta bic preta. Eu percebi que o meu jeito de escrever é muito parecido com o seu, assim com pouca pontuação pra muita palavra e eu acho que isso deve refletir algo sobre o nosso temperamento ansioso. Você era todo elétrico (um fio descascado) e calmo ao mesmo tempo do tipo completamente louco que eu achava charmosíssimo e tentei até imitar mais tarde mas me fez muito mal. Eu escrevo o que me vem à cabeça eu escrevo para não enlouquecer às vezes eu acho que a minha cabeça vai estourar de tanto pensar. Então eu fiz esse blog para economizar a grana dos ansiolíticos que estou usando para ficar mais calma um pouco de calma para esquecer de pensar ou pensar menos um pouco. Agora eu vou explicar o que é um blog porque esse troço não é do seu tempo. Num blog as pessoas podem escrever sobre o que elas quiserem, podem fazer um diário, comentar os últimos acontecimentos, publicar textos, crônicas, falar de moda, literatura, comportamento, atualidades, esportes e até receita de bolo. Mas como eu já falei, eu escrevo para não enlouquecer. Mamãe vendeu a nossa casa e todos os móveis para comprar um apartamento e outros móveis. A nossa casa antiga de azulejos na frente e com piso de mármore colorido que você foi capaz de me jurar que era feito de pedras preciosas, o quintal enorme e verde, vertiginosamente verde hoje está horrível a nossa casa. Passei por lá um dia desses e tive uma crise! Eles cortaram tudo, papai! Você acredita? Os Malditos Cortadores de Árvores mataram todas elas não sobrou nenhuma. Fizeram um estacionamento, aqueles imbecis! Não pouparam nem a casa do nosso cachorro (lembra da nossa bicharada???) e por falar em cachorro não dá para criar nenhum bicho em apartamento e nunca mais eu pude criar nem um gatinho inocente. Pior pra mim, pior pra minha saúde mental, eu que prefiro os bichos! Viver sem a companhia deles é tão triste... Bichos não são pessoas porque são melhores, digo superiores... Em termos gerais, eu respeito mais a vida de um cão sarnento e raivoso do que todo o restante da humanidade. As pessoas me condenam porque eu nunca levo flores e velas ao seu sepulcro. É que eu não consigo fazer uma coisa que eu não acredite e cada um escolhe no que deve ou não acreditar, então, se uma pessoa acredita que esse gesto adianta alguma coisa o problema é todo dela, para mim não adianta nada. Flor nenhuma traz você de volta pra mim, não tem rosa, margarida, acácia, crisântemo, papoula, lírio, jasmim, orquídea, tulipa, cravo, girassol, gérbera ou astromélia que traga você de volta! Flores são lindas mas não sabem fazer milagre não falam e não ressuscitam! Não vejo razão de ser em cerimoniais religiosos e redentores sacrificados, eu acredito apenas no amor. O amor perdoa, salva, redime, harmoniza, apascenta, edifica, renasce e liberta o homem de quaisquer males. O amor deveria ser a grande religião e a grande lei dos homens e não os dogmas e não a instituição e não a exploração da miséria em seu nome! Eu não acredito em igrejas; cultuam o corpo e creem na ressurreição da carne porque nunca souberam viver muito menos usar a alma na vida. Então, que propósito há na ressurreição de uma coisa inútil e morta como a vida de um católico??? Eu sei usar a minha alma eu gasto a minha alma o tempo todo às vezes passo do limite e o meu corpo sofre males terríveis, ah, papai, você não imagina como eu me tornei explosiva e temperamental. Sentimentalóide psicossomaticamente incorrigível!! Enquanto você estava vivo eu era apenas a mais perdida e lunática e a mais complexada de todas as crianças porque todos sabiam que a nossa família era um antro de insanidades! A genética?...Tá bom, não vamos brigar agora. Não depois de tanto tempo. Sim, voltando ao seu sepulcro, não, na verdade estava falando da MINHA alma; pois então é o seguinte meu pai eu gasto toda minha alma e vivo apenas para satisfazê-la! Eu gasto a minha alma enfurecidamente com livros, músicas, paisagens, tempestades, paixões, pessoas e principalmente com substâncias. Por isso, meu coração vive aos pedaços. M
as agora estou guardando o meu existencialismo apenas para a literatura porque vou fazer trinta anos e continuo com mais parafusos soltos do que relógio quebrado! Ah Ah Ah! Será que nós podemos mudar as tendências que nos destróem, papai? Na verdade, não há sentido algum em nada que fazemos ou procuramos ou desejamos assim como não há sentido algum na vida toda, por isso é preciso reinventá-la a todo instante para que possa ter algum sentido. Às vezes, a minha vida parece metade com um poema de Florbela Espanca e metade com um filme de David Lynch. E no fim das contas, é tudo a mesma coisa; estômago, vísceras, alma, ventre, coração!!! Todos vibram com a mesma intensidade. Amanhecer é difícil, pois exige mudanças. Acordar todos os dias é um motivo grave porque a noite é um intervalo muito perigoso e o sol é uma advertência! Eu não sei descrever a minha pessoa, papai, porque eu não sei o que eu me tornei. Ou estou muito feliz ou muito triste e quando estou no meio é como se eu não existisse e todos os dias fossem iguais.


quinta-feira, 22 de abril de 2010

Memória das Emoções

Muitas vezes a paixão pela vida dava lugar a uma tristeza contida, consciente de si mesma, quase lógica e, acima de tudo, inexoravelmente permanente. A Mulher de Quase Trinta Anos era assim o tempo todo: quando não era noite, era tempestade. E foi assim que encontrou dentro de si uma espécie de equilíbrio; viveria para sempre num quarto de pêndulos cuja existência indecisa oscila entre a vontade de viver e o eterno vazio da desistência. Vivo como as rochas desgastadas que o mar espanca e lambe para novamente voltar a lamber e espancar. Nem me movo: sobrevivo bem às intempéries. Afinal de contas, tem sido assim sempre. Aprendi a permanecer mais em estado de pedra que de nuvem. Desde então, tenho aprendido a reconhecer a memória das emoções, especialmente a solidão. E já que é inevitável a mim, assim como é a todos nós, não me resta fazer mais nada, nem recuar nem reagir, além de lançar sobre ela o meu olhar de sacerdotisa e o meu aceno de completa e total indiferença. Algumas coisas não precisavam ser ditas, nem exxxxplicadas, nem sequer pensadas. Antes simplesmente sentidas. Porque elas existem independendo da nossa vontade e, principalmente, da nossa existência. Querer nomear o tempo todo o que se está sentindo é a perda desse tempo que se sente. Ou não sente. Seja lá o que haja dentro desse espaço confuso embrulhado e tímido dentro das nossas mentes quando estamos sós. Ah, a solidão! Como é difícil disfarçá-la, enganá-la, transformá-la em outra coisa! E, sendo assim, até o desespero é melhor porque no desespero a gente sente, grita, age! Na solidão a gente anula, invalida, deixa de respirar, dissolve, quase morre, desaparece de si. Principalmente quando você está acompanhado. -Acompanhado não quer dizer que não está sozinho-, prestem bem muita atenção ao fato! Agora, se tratando de maneiras de burlar a solidão, uma verdade de quem realmente sabe do que está falando: Se você achar que vale a pena correr riscos para alcançar uma suposta felicidade pode até dar certo, mas sempre tenha a convicção de que um dia poderá pagar um preço alto demais por isso, sempre é bom tomar cuidado, mesmo quando o valor parecer irrisório. Considero esta dúvida uma das maiores; até que ponto é seguro estar em paz. Primeiro devemos conquistar a nossa paz, para isso temos que entender a memória das emoções numa análise individual e combinatória de todas as emoções que nos atingem. Às vezes, confundo tranquilidade com tristeza, solidão com abandono e amor com aprisionamento. Tá vendo como é difícil separar as coisas... Estar triste não significa necessariamente estar angustiado porque a tristeza faz parte da ordem natural das coisas e inevitavelmente ela consegue penetrar na essência de todos os acontecimentos. Portanto, para fins de classificação, ela é mais uma constatação do que um sentimento. Pensando bem, até a felicidade é triste. É triste porque é breve e sabe disso, ela sabe que não permanece em lugar algum por muito tempo. Vinícius estava certíssimo: ela é a gota, é o vento, é a pluma... Sendo assim, a tristeza não é o contrário da felicidade: já que a felicidade também é triste. O contrário da verdadeira felicidade (que na verdade é a Alegria) é a Angústia. A alegria é mais sincera que a felicidade porque é descompromissada e desinteressada. Justamente por não saberem disso, as crianças são mais Felizes que os adultos porque estão sempre alegres. E são sem o saber, que é o melhor de tudo! Quando descobrem, deixam de ser(é como se fosse um segredo mágico, o grande segredo mágico da infância!) È a ignorância do porvir, o não precisar de esperança, o desconhecimento do tempo, do passar das horas, a inocência sobre o futuro, tudo isso coroado com o Grande Segredo Mágico da Alegria da Infância!! A alegria que elas não sabem de onde vem nem quando vai acabar. Nós, adultos, pensamos e esperamos pelos problemas antes de eles aparecerem. Quando existe um ser humano realmente alegre e feliz há quatro possibilidades: ou é eternamente criança ou é um ignorante ou um louco ou é um sábio; e este é o mais forte e merece todo o mérito e todo o respeito; ele aprendeu com a vida e não se deixou abater, ele lutou e conseguiu ou ainda está lutando porque gente como ele não costuma desistir e acredita que no fim tudo dá certo; este é do tipo que sabe realizar sonhos. Estas pessoas merecem até nome de rua, de avenida e de praça pública porque certamente são os heróis da sobrevivência, os grandes mestres da arte de viver. Os pré-socráticos já sabiam que a árvore do conhecimento é a árvore da dor. Às vezes eu penso que melhor seria não pensar. Eu gostaria de ser um ignorante, um iletrado, um pastor de ovelhas do campo e desconhecer toda espécie de sordidez e insanidade humanas. Eu quero a minha ingenuidade novamente, eu quero a minha capacidade de confiar na minha raça e na minha pessoa apesar de tudo e definitivamente eu não queria saber sobre os campos de batalha, das crianças e mulheres refugiadas da guerra, das baleias e golfinhos assassinados todos os anos, do aquecimento global, da devastação da natureza, do fim do mundo, dos vícios irremediáveis, das pragas atômicas, do fim do mundo, da depressão inexprimível, do desacordo contínuo entre o abismo corpo/alma, da falta de perspectiva do mundo atual, da alienação e frustração da minha geração, da fome e da tortura e da doença do mundo atual. O mundo atual é um lixo, uma infecção generalizada... Nossa, esse parágrafo começou falando sobre alegria e eu vim parar no apocalipse? Mas o que é isso?! eu fiquei doente em solidariedade ao mundo???

Da Angústia

A angústia é a tristeza quando se rebela e cria formas variadas de demônios e melancolias.
A angústia é a tristeza se olhando no espelho querendo ser bonita mas não consegue. Ela é disforme porém nítida, real e implacável.
A angústia é o peso de cada coisa, a medida da impossibilidade, do desejo não-realizado, da beleza não reconhecida, do amor não correspondido, do sonho não alcançado.
A angústia é um poema de Augusto.
A angústia são as nuvens avolumando-se lentamente carregando o peso de uma antiga civilização falida.
A angústia é uma pedra lançada no fundo de um rio caindo lá embaixo junto a outras pedras paradas enquanto a vida passa impunemente pela superfície. Ela é a grande tormenta e a grande dor; a angústia é uma velha cantora de Blues que já não tem voz, só uísque. A tristeza pode ser grande, mas é justa porque um dia vai embora enquanto a angústia é trapaceira e covarde e monstruosa; ela é a intrusa das almas e tem duas irmãs bem íntimas: a espera e a dúvida. Ou talvez sejam apenas amigas(ninguém nunca soube ao certo) mas o fato é que vivem sempre juntas essas três malditas! A angústia era o segundo nome da Menina da Janela. A mãe dizia: não adianta! Ela não sai da janela! Por acaso ela pensa que é algum jarro de flor? ou alguma vidraça ou coisa assim? E ela parada na janela todos os dias pensava: vida, porque eu sempre deixo você passar por mim e eu fico aqui só te olhando, te sonhando e te desejando? Até que um dia ela saiu. Aí, ela começou a participar do mundo dos humanos e até gostou e se emocionou e depois cansou, depois voltou e cansou e voltou várias vezes até ficar tonta no meio fio da calçada entre a janela e a rua. De vez em quando ela volta para sua janela em seu estado de flor original. Mas hoje ela não tem mais raiz, hoje ela é mais do vento, embora da terra. E o seu segundo nome deixou de ser Angústia porque ela conseguiu sair da janela. Ela alcançou a glória.